Há manhãs em que acordo e o meu corpo parece um estranho. Nalguns dias, os movimentos são suaves, apenas um sussurro à superfície. Outros dias, chegam com força, puxando-me em direcções que não planeei seguir. Viver com a doença de Huntington significa que o meu corpo escreve muitas vezes o seu próprio guião e eu estou simplesmente a tentar aprender as minhas deixas em tempo real.
Houve uma altura em que essa imprevisibilidade me deixava zangada e com medo. Costumava lamentar os dias em que podia prever como o meu corpo se iria mover, em que uma volta ao quarteirão não exigia cálculo ou coragem. Mas, ao longo dos anos, a gratidão tornou-se a minha rebelião silenciosa. É assim que suavizo as arestas do medo. A gratidão, apercebi-me, não tem a ver com fingir que as coisas estão bem, mas sim com reparar no que ainda brilha através das fendas.
Durante muito tempo, acreditei que a gratidão era algo que vinha depois das coisas boas terem acontecido, uma celebração das bênçãos óbvias. Mas a doença de Huntington reformulou essa ideia para mim. A gratidão vive agora nos mais pequenos pormenores: uma respiração regular durante a meditação, o riso que escapa quando os meus movimentos me tornam acidentalmente dramático.
Quando o nosso corpo se sente imprevisível, a gratidão torna-se uma força de base. Não é performativa ou forçada. É uma âncora. Não acordo todas as manhãs a sentir-me grato, há dias em que acordo exausto, frustrado ou assustado. Mas aprendi que a gratidão não é um estado de espírito; é uma prática. É escolher, momento a momento, procurar o que permanece estável mesmo quando tudo o resto muda.
Uma das lições mais difíceis que a doença de Huntington me ensinou foi como descansar sem culpa. Costumava pensar que descansar significava que estava a desistir ou a abrandar demasiado. Mas este corpo requer delicadeza e aprender a ouvir essa verdade tem sido transformador.
O descanso tornou-se um ato de gratidão em si mesmo. Quando me permito dormir a sesta, cancelar planos ou simplesmente respirar sem pressa, estou a dizer ao meu corpo: Estou a ver-vos. Hoje não vou lutar contra ti. Essa mudança, de ver o descanso como respeito em vez de resistência, aprofundou a minha relação com o meu corpo. O descanso não é preguiça; é reconhecimento. É uma nota de agradecimento para as partes de mim que continuam a tentar.
A doença de Huntington também me deu um novo apreço pelo riso, do tipo que borbulha inesperadamente e parece oxigénio. Não porque seja engraçado no sentido tradicional, mas porque o humor ajuda-me a libertar a tensão daquilo que não consigo controlar.
Aprendi que o riso é o seu próprio tipo de graça. Liga-me aos outros e lembra-me que a alegria ainda é possível aqui, mesmo num corpo que parece imprevisível. Por vezes, o riso chega como um velho amigo, exatamente quando mais preciso dele. E quando ela chega, deixo-a ficar durante algum tempo.
Talvez a dádiva mais profunda de viver com a doença de Huntington seja o facto de me ter ensinado a viver o momento, não porque esteja a tentar ser nobre ou filosófico, mas porque planear demasiado à frente pode parecer impossível. Há uma estranha liberdade nisso.
Reparo no som da chuva contra a janela, no ritmo da minha própria respiração, na forma como a luz do sol incide sobre as minhas plantas de manhã. Estes pormenores podem parecer pequenos, mas tornaram-se a minha bússola. Guiam-me de volta ao agora.
A gratidão treinou os meus olhos para olharem mais de perto, para verem beleza onde antes só via perda. Ensinou-me que a presença não é um estado passivo, é uma escolha ativa de participar na nossa própria vida, mesmo quando ela parece confusa ou imprevisível.
Por vezes, as pessoas dizem-me que sou forte, mas não acho que a força se pareça com lutar a toda a hora. Por vezes, a força parece-se com a rendição, com o facto de nos permitirmos encontrar a paz no que é, e não apenas no que gostaríamos que fosse. Para mim, a gratidão faz parte desse processo de cura.
Quando me concentro no que ainda é bom, na música que me acalma, nos amigos que me visitam, no corpo que ainda me carrega, noto que o medo se afrouxa. A gratidão não apaga a dor, mas reformula-a. Dá contexto ao sofrimento, mostrando-me que, mesmo nos dias difíceis, a vida oferece momentos de doçura.
Esta mentalidade não surge naturalmente todos os dias. Algumas manhãs, tenho de me convencer a fazê-lo. Recordo-me que a gratidão não é negar a dificuldade, é expandir a minha visão para incluir também a beleza.
Todas as noites, antes de me deitar, digo três coisas pelas quais estou grato. Raramente são coisas grandes. Por vezes, é tão simples como: "O meu chá ficou quente o tempo suficiente para eu o saborear. Ou, não caí hoje. Outras vezes, é emocional: senti-me compreendido.
Este ritual ajuda-me a lembrar que, mesmo quando o meu corpo muda, a minha capacidade de gratidão não desaparece, adapta-se. Lembra-me que a alegria e a luta podem existir juntas.
Há poder em encontrar paz na imprevisibilidade. Viver com a doença de Huntington não tornou a gratidão mais difícil; tornou-a mais honesta. A minha gratidão não é brilhante ou perfeita, é crua, fundamentada e real. Vive nos espaços entre a perda e o amor, entre o medo e a fé.
Todos os dias, escolho encontrar o meu corpo onde ele está, com paciência, riso e agradecimento. E, ao fazê-lo, descubro que a gratidão continua a aparecer também para mim, mesmo nos momentos mais imprevisíveis.